TCU quer mapa do caminho mais barato para o transporte de carga no país

O Tribunal de Contas da União vai criar uma ferramenta de simulação, em parceria com a Infra S.A., para avaliar onde o investimento público em transporte gera o maior ganho de custo logístico para a carga. Para o transportador, o tema entra no radar porque a forma como o governo prioriza corredores e modais define, na prática, a qualidade da malha, o tempo de viagem e o custo do quilômetro rodado nos próximos anos.

O planejamento de transporte no país vai ganhar uma ferramenta especial de acompanhamento pelo Tribunal de Contas da União (TCU), com o objetivo de mostrar onde o investimento público pode ser mais efetivo para reduzir o custo logístico da carga. A ideia é que o instrumento funcione como um “espelho” do Plano Nacional de Logística (PNL) 2050, embora com critérios diferentes, permitindo aos auditores avaliar, por simulações, qual escolha de investimento é mais vantajosa sob a ótica do custo logístico.

O que aconteceu

A metodologia será rodada pela Infra S.A., estatal que foi o braço técnico de elaboração do PNL 2050, lançado em agosto e responsável por dividir o país em 42 eixos que organizam os investimentos em transportes para as próximas duas décadas. A parceria será firmada por meio de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre a empresa e o TCU.

“Vamos mapear qual é o melhor uso da nossa malha do ponto de vista do custo para a carga, qual o caminho mais barato. Vamos conseguir ter informações de onde vale a pena efetivamente investir dinheiro”, explicou à Agência iNFRA o auditor do TCU Maurício de Albuquerque Wanderley.

Diferente do planejamento feito pelo governo, que endereça empreendimentos a partir de um diagnóstico que considera gargalos, a simulação vai rodar um cenário ideal, que desconsidera as limitações do mundo real. Assim, quando o governo apresentar um projeto baseado na melhoria de um corredor, o TCU poderá avaliar se aquele projeto é o mais efetivo economicamente e onde pode haver a melhor rentabilidade.

O auditor usa como exemplo o Porto de Santos: sem as limitações de capacidade na descida da serra, quanto de carga escolheria o porto por ser mais barato? Uma informação que nem a Autoridade Portuária de Santos (APS), nem o governo, nem o TCU têm hoje. O problema é considerado especialmente grave para ferrovias abandonadas: trechos não operacionais hoje têm sido desconsiderados nos planejamentos, mesmo quando as cargas teriam potencial de transitar de forma mais barata do que por rodovia, se houvesse capacidade.

Gap de informação

A construção da metodologia parte da identificação de que o tribunal trabalha hoje com um “gap”: a falta de um critério para realizar as auditorias e saber se um projeto está efetivamente levando ao resultado que o PNL pensou. O projeto com a Infra S.A. integra a preparação do TCU para avaliar os desdobramentos do novo plano de logística.

O lançamento do PNL 2050 em agosto não concluiu os trabalhos. O próximo passo é a criação dos planos setoriais de cada modal, que o Ministério dos Transportes espera concluir até dezembro. Esses planos vão detalhar regionalmente cada cronograma de investimentos, complementando o plano nacional em nível tático. O documento já dividiu o sistema de transporte em três tipos de corredores: exportação, consumo interno e integração territorial.

Sem descontinuidade

Há uma preocupação, dentro do TCU, de que o novo PNL não sofra descontinuidade com mudanças de governo. A avaliação é que a base do novo plano seja preservada, maleável o suficiente para incorporar avanços, em especial de coleta e tratamento de dados, mas sem perder o olhar mais abrangente da estruturação por corredores. A ideia é evitar que novas gestões reiniciem planejamentos do zero apenas para justificar novas listas de obras de caráter mais político do que resolutivo.

O que muda na prática para o transportador

  1. Investimento público com critério de custo logístico — a nova ferramenta do TCU passa a cobrar do governo projetos que comprovadamente reduzam o custo da carga, não apenas que atendam a corredores politicamente prioritários;
  2. Redefinição de prioridades modais — as simulações podem apontar que determinados corredores ferroviários ou hidroviários são mais baratos para a carga do que a rodovia, redirecionando investimentos e alterando a competitividade modal em várias rotas;
  3. Rodovia segue protagonista, mas com pressão de eficiência — o TRC concentra cerca de 71% da carga que anda no país; se o TCU identificar ganho claro em outros modais, a pressão por eficiência, custo e produtividade na rodovia tende a aumentar em trechos específicos;
  4. Previsibilidade de obras e corredores — com os planos setoriais previstos até dezembro, as transportadoras terão mais clareza sobre quais corredores receberão investimento, o que orienta roteirização, expansão de frota e decisões de negócio de longo prazo;
  5. Menos obras de fachada, mais resultado — a preocupação do TCU com a descontinuidade entre governos sinaliza um ambiente de planejamento mais estável e baseado em dados, o que reduz a incerteza regulatória e de infraestrutura para o setor.

Onde está o risco

O risco imediato é de migração modal em corredores específicos: se as simulações apontarem que ferrovias ou hidrovias são significativamente mais baratas para determinadas cargas, investimentos antes destinados à rodovia podem ser redirecionados, reduzindo a prioridade de obras rodoviárias em alguns trechos e alterando a equação de custo e tempo do transporte rodoviário. O risco estratégico é de incerteza no período de transição: até os planos setoriais saírem, o setor convive com indefinição sobre quais corredores serão priorizados, o que dificulta o planejamento de longo prazo de transportadoras que dependem de infraestrutura específica.

Onde está a oportunidade

A oportunidade está na eficiência da malha como fator de competitividade. Um planejamento de investimentos guiado por custo logístico tende a produzir corredores mais eficientes, reduzindo tempo de viagem, desgaste de frota e custo por quilômetro rodado. Para o transportador, acompanhar os planos setoriais e os corredores priorizados permite antecipar rotas mais vantajosas, identificar trechos com melhoria de infraestrutura e planejar investimentos de frota com mais segurança. A estabilidade de planejamento defendida pelo TCU também reduz surpresas regulatórias e dá previsibilidade ao setor.

Leitura estratégica

A decisão do TCU de medir o custo logístico da carga como critério de investimento público é um marco para o planejamento de transporte no país. Para o transportador, a leitura é de acompanhamento ativo: o PNL 2050, os planos setoriais que saem até dezembro e as simulações do TCU vão desenhar a malha das próximas duas décadas, e quem conhece os corredores priorizados se posiciona antes na roteirização, na negociação com embarcadores e na decisão de frota. No TRC, infraestrutura não é tema distante: é o que define, na ponta, o custo do frete e a competitividade de cada operação.

Crédito/Fonte Agência iNFRA (01/10/2026)

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