• 22 de setembro de 2026
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Grandes embarcadores terceirizam 85% do transporte de cargas: a transportadora é o elo central da cadeia

Pesquisa do Ilos com mais de 100 grandes empresas mostra que transportadoras contratadas respondem por 85% do volume movimentado, contra 8% de frota própria e 7% de autônomos diretos. Para o TRC, o dado reforça o papel estratégico das transportadoras, mas também a pressão por capacidade, nível de serviço e repasse justo do piso mínimo.

A terceirização domina a movimentação de cargas das grandes empresas brasileiras. Segundo pesquisa do Ilos realizada em 2026 com mais de 100 grandes companhias dos setores de indústria, varejo e agronegócio, as transportadoras contratadas respondem por 85% do volume movimentado, enquanto apenas 8% são transportados por frota própria e 7%, por caminhoneiros autônomos contratados diretamente.

O que aconteceu

O levantamento revela uma mudança importante no papel das áreas de transporte das grandes companhias. Com apenas uma pequena parcela da movimentação sob operação própria, a gestão passa a estar concentrada na contratação de transportadores, acompanhamento de desempenho, garantia de capacidade e manutenção de uma rede capaz de responder às oscilações da demanda.

Na prática, o embarcador transfere a execução do transporte, mas não a responsabilidade pelo serviço prestado ao cliente. Prazos, disponibilidade de veículos, custos e qualidade da entrega continuam afetando diretamente sua operação.

Capacidade ganha peso

Essa dependência de terceiros ganha relevância diante das dificuldades de disponibilidade de motoristas e da idade elevada de parte da frota brasileira. Dados da CNT, com base na ANTT, apontam idade média próxima de 15 anos para a frota nacional de veículos de carga, chegando a mais de 21 anos entre transportadores autônomos. A entidade também vem apontando a carência de motoristas profissionais como um dos desafios do setor.

Nesse ambiente, a disputa por capacidade pode se tornar particularmente crítica nos períodos de maior demanda. Para o Ilos, a disponibilidade de caminhões tende a depender não apenas do preço do frete, mas também da qualidade da relação construída pelo embarcador com sua base de transportadores.

O cenário amplia a importância de fatores como previsibilidade de volumes, prazo de pagamento, tempo de carga e descarga, produtividade dos veículos e estabilidade dos contratos. Para o embarcador, a terceirização reduz a necessidade de manter ativos próprios, mas aumenta a importância da gestão da rede de fornecedores de transporte.

Frete também pressiona

O custo é outra variável desse modelo. Em outro recorte da mesma pesquisa, o Ilos identificou que 55% das grandes empresas embarcadoras aumentaram seus gastos com frete rodoviário em razão especificamente da regulação do Piso Mínimo. Outros 9% elevaram os valores por decisões não relacionadas à norma, enquanto 35% disseram não ter registrado aumento.

A combinação entre elevada terceirização, pressão sobre custos e necessidade de assegurar capacidade muda também a lógica de contratação. A concorrência pelo menor preço deixa de ser o único componente da negociação, principalmente em operações nas quais indisponibilidade de veículos ou atrasos podem comprometer produção, estoques ou entregas ao consumidor.

A estrutura encontrada pelo Ilos também mostra que a relação direta entre grandes embarcadores e caminhoneiros autônomos representa uma parcela pequena do volume total, apenas 7%. Isso não significa participação igualmente reduzida dos autônomos na movimentação dessas cargas, pois parte deles pode atuar como terceiro das próprias transportadoras contratadas pelos embarcadores, uma relação que não aparece como contratação direta no levantamento.

O que muda na prática para o transportador

Para o TRC, a pesquisa confirma que a transportadora é o elo central da cadeia logística:

  1. Posicionamento estratégico — com 85% do volume nas mãos das transportadoras, a associada deixa de ser mera executora e passa a ser parceira de capacidade e nível de serviço do embarcador;
  2. Pressão por capacidade — com frota envelhecida e carência de motoristas, a disputa por caminhões nos picos de demanda valoriza transportadoras que garantem disponibilidade e previsibilidade;
  3. Repasse do piso mínimo — 55% dos embarcadores reportam aumento de custo com frete por causa do piso, o que reforça a necessidade de negociação transparente e de repasse justo, sem romper a relação;
  4. Concorrência por serviço, não só por preço — em operações críticas, nível de serviço, pontualidade e estabilidade de contrato pesam tanto quanto o valor do frete.

Onde está o risco

O risco imediato é de pressão sobre a margem: com o piso mínimo elevando o custo do frete, parte dos embarcadores pode tentar repassar a pressão para a transportadora, tensionando a negociação. O risco estratégico é de dependência de poucos clientes: transportadoras concentradas em poucos grandes embarcadores ficam expostas a mudanças de política de contratação e a oscilações de demanda.

Onde está a oportunidade

A oportunidade está em transformar a relação de terceirização em parceria de longo prazo. Transportadoras que oferecem previsibilidade, capacidade nos picos, transparência de custos e nível de serviço consistente se diferenciam da concorrência por preço. A pesquisa mostra que o embarcador valoriza exatamente esses fatores, o que abre espaço para contratos mais estáveis e para o reconhecimento do custo real da operação, incluindo o piso mínimo.

Leitura estratégica

O retrato do Ilos mostra uma cadeia na qual as grandes empresas mantêm cada vez menos caminhões sob controle direto, mas precisam ampliar a capacidade de gerir quem efetivamente coloca a carga na estrada. Para o transportador, a leitura é de posicionamento: a terceirização não é uma ameaça, é a confirmação do papel central da transportadora. Quem investe em capacidade, nível de serviço e relação de confiança com o embarcador se torna parceiro estratégico, e não apenas fornecedor de frete.

Crédito/Fonte Agência Transporte Moderno, com base em pesquisa do Ilos 2026

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