Nova regra da CNH amplia acesso, mas transfere custo de formação para transportadoras

Redução da carga prática e flexibilização das aulas devem ampliar a oferta de motoristas, mas aumentam a pressão sobre treinamento, segurança e custo operacional no TRC

A nova regra da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para motoristas das categorias C, D e E deve ampliar o acesso à profissão e facilitar a entrada de novos condutores no mercado em 2026. Com a redução da carga prática mínima de 20 para 10 horas e o fim da obrigatoriedade de aulas em autoescolas para essas categorias, o processo ficou mais rápido, digital e mais barato.

A medida busca destravar o acesso à habilitação profissional em um país em que o custo sempre foi apontado como uma das principais barreiras de entrada. Ao mesmo tempo, a mudança acende um alerta no setor de transporte, já que parte da formação prática tende a ser absorvida pelas próprias empresas, que podem precisar reforçar treinamento, integração e acompanhamento operacional dos novos motoristas.

Queda de custo pode ampliar a base de condutores

Um dos principais objetivos da mudança é reduzir o custo da habilitação no Brasil, historicamente elevado. Estudo do Centro de Liderança Pública (CLP) mostra que tirar a CNH custava, em média, R$ 3,2 mil no país e podia chegar a R$ 5 mil em alguns estados, com cerca de 70% desse valor relacionado às exigências das autoescolas.

Com as novas regras, o governo estima que o custo pode cair até 80%, fazendo com que a primeira habilitação passe a custar a partir de cerca de R$ 700,00. Na prática, a redução tende a ampliar o acesso ao documento e estimular a entrada de novos candidatos no mercado de motoristas profissionais.

O estudo também aponta que cerca de 54% dos brasileiros aptos a dirigir não possuem CNH e aproximadamente 18 milhões dirigem sem habilitação. Além disso, a emissão de novas carteiras vinha em queda, passando de 2,8 milhões em 2022 para 2,59 milhões em 2024, o que reforça o potencial de expansão da base de condutores com a nova regra.

Procura já mostra primeiros sinais de reação

Os primeiros efeitos do novo modelo começaram a aparecer no início deste ano. Em janeiro, a busca pela primeira CNH cresceu 25% no Estado de São Paulo na comparação anual, com altas ainda mais expressivas em cidades como São José dos Campos, Campinas e Barueri.

O avanço reforça a expectativa de aumento na oferta de motoristas, hoje um dos principais gargalos do transporte rodoviário de cargas. Em um setor pressionado por dificuldade de reposição de mão de obra, envelhecimento da força de trabalho e custos operacionais elevados, qualquer medida que amplie a entrada de novos profissionais passa a ser observada com atenção.

Menor carga prática levanta preocupação com preparo e segurança

Se por um lado a regra torna a habilitação mais acessível, por outro levanta preocupações sobre o nível de preparo dos novos condutores. Com menos horas de prática, especialistas e profissionais do setor avaliam que muitos motoristas podem chegar ao mercado com experiência insuficiente para lidar com situações reais da operação, sobretudo na condução de veículos pesados e em rodovias mais complexas.

Esse cenário tende a deslocar parte da responsabilidade pela capacitação para dentro das transportadoras. Programas internos de treinamento, integração operacional, acompanhamento em rota e desenvolvimento de motoristas iniciantes ganham ainda mais relevância para preservar segurança e eficiência.

Além disso, a entrada de profissionais menos experientes pode impactar indicadores importantes para as empresas, como sinistralidade, produtividade, custo de manutenção e valor do seguro, principalmente no curto prazo. Em contrapartida, no médio prazo, o aumento da oferta de mão de obra pode ajudar a reduzir parte das pressões hoje existentes sobre as operações.

Impacto entra no radar do TRC do Centro-Oeste mineiro

Para o TRC do Centro-Oeste mineiro, a mudança combina oportunidade e desafio. De um lado, a flexibilização pode contribuir para ampliar o número de motoristas disponíveis em um mercado que enfrenta escassez de profissionais e dificuldade de renovação da mão de obra. De outro, aumenta a necessidade de estrutura interna para complementar a formação prática e garantir padrão adequado de segurança nas operações.

Na prática, empresas da região tendem a acompanhar com atenção os efeitos da nova regra sobre admissão, curva de aprendizado, custo de treinamento e desempenho operacional. O tema também se conecta diretamente à rotina de transportadoras, embarcadores e operadores logísticos que dependem de mão de obra qualificada para sustentar produtividade e confiabilidade no atendimento.

Acesso maior à profissão exige equilíbrio com qualificação

A nova regra da CNH pode ajudar a reduzir barreiras de entrada e ampliar o acesso à profissão, o que representa um movimento relevante para um setor que precisa renovar sua base de motoristas. No entanto, o ganho de acesso não elimina a necessidade de qualificação técnica, experiência prática e formação voltada à segurança.

Para o transporte rodoviário de cargas, o desafio passa a ser equilibrar ampliação da oferta de condutores, redução de custo de entrada e manutenção da segurança operacional. Nesse contexto, a formação dentro das empresas tende a ganhar peso estratégico cada vez maior.

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