Governo quer barrar empresas que descumprirem tabela de frete mínimo
Medida discutida pelo governo prevê reforço da fiscalização, monitoramento eletrônico dos fretes e sanções mais duras para empresas reincidentes no descumprimento do piso

O governo federal estuda adotar medidas mais rígidas contra empresas que descumprirem a tabela mínima de frete, incluindo a possibilidade de impedir novas contratações de serviços de transporte no país. A sinalização foi dada pelo ministro dos Transportes, Renan Filho, em meio ao aumento da pressão no setor após a alta recente do diesel e a ameaça de paralisação de caminhoneiros.
Segundo o ministro, a proposta integra um pacote voltado ao fortalecimento da fiscalização do piso mínimo do frete rodoviário, com foco em ampliar a capacidade de monitoramento e de punição dos agentes que reiteradamente desrespeitam a regra. Entre os instrumentos em discussão está a suspensão cautelar do direito de contratar fretes para empresas reincidentes.
Em casos mais graves, o governo também avalia medidas mais severas, como o cancelamento do registro para operar no transporte de cargas.
A iniciativa busca aumentar o nível de enforcement regulatório no setor, diante da avaliação de que o modelo atual ainda apresenta baixa efetividade prática. A percepção do governo é que, em muitos casos, as multas aplicadas pelo descumprimento da tabela vêm sendo tratadas apenas como custo operacional, sem efeito dissuasório suficiente.
Fiscalização e descumprimento
De acordo com informações apresentadas pelo Ministério dos Transportes, há indícios de descumprimento generalizado da tabela de frete em diferentes regiões do país. Esse cenário, segundo o governo, afeta diretamente a renda dos caminhoneiros e distorce a concorrência no setor.
Levantamentos da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apontam que cerca de 20% das fiscalizações resultaram em autuações, o que reforça a leitura de que o problema não é pontual. Ainda segundo o governo, entre os maiores infratores há empresas de grande porte e de diferentes segmentos da economia.
Esse ambiente sustenta o argumento oficial de que é necessário endurecer o arcabouço fiscalizatório e criar mecanismos mais eficientes de responsabilização.
Monitoramento eletrônico e responsabilização ampliada
Entre as medidas em avaliação está a ampliação do monitoramento eletrônico dos fretes, estratégia que deve ser combinada com reforço da fiscalização presencial. O objetivo é melhorar a rastreabilidade das operações e elevar a capacidade de identificação de irregularidades.
A proposta também prevê ampliar o escopo da responsabilização, alcançando não apenas transportadoras, mas também embarcadores e até controladores, quando houver recorrência no descumprimento das obrigações ligadas ao piso mínimo.
Na prática, isso indica uma possível evolução do modelo regulatório para uma lógica de maior governança da cadeia de contratação, com implicações diretas sobre compliance, documentação e gestão contratual.
Contexto de pressão no setor
O anúncio ocorre em um momento de forte sensibilidade para o Transporte Rodoviário de Cargas, em razão da alta do diesel e do aumento da insatisfação entre caminhoneiros. O governo busca evitar uma nova paralisação nacional, como a registrada em 2018, e mantém diálogo com lideranças da categoria.
A tabela mínima de frete foi criada justamente naquele contexto, durante o governo do ex-presidente Michel Temer, com a previsão de reajustes automáticos sempre que o preço do diesel varia mais de 5%.
Apesar das atualizações promovidas recentemente pela ANTT, o governo entende que ainda são necessários ajustes para garantir maior efetividade à política pública e assegurar remuneração adequada aos transportadores.
Leitura estratégica para o setor
Para o mercado, o recado é claro: o tema do frete mínimo tende a ganhar ainda mais centralidade na agenda regulatória e operacional do transporte de cargas.
Se a proposta avançar, as empresas precisarão reforçar controles em áreas como:
-
compliance regulatório
-
aderência contratual ao piso mínimo
-
gestão de embarcadores e contratantes
-
documentação das operações
-
rastreabilidade e monitoramento dos fretes
O movimento também sinaliza que o governo pretende elevar o custo regulatório do descumprimento, substituindo um modelo de baixa efetividade por uma abordagem mais restritiva e com maior potencial sancionatório.
Em um cenário de custos pressionados e maior vigilância institucional, acompanhar a evolução desse debate passa a ser estratégico para transportadoras, embarcadores e operadores logísticos.
SETCOM — Mais próximo, mais atuante e mais expressivo!
