Escala 5×2 pressiona transporte a reduzir esperas nas entregas
Com a nova jornada, ampliar equipes não é opção viável diante da escassez de motoristas: a saída, segundo empresário do setor, é negociar com os embarcadores a redução do tempo perdido em cargas, descargas e entregas.

A adoção da escala 5×2, prevista na PEC 221/2019 aprovada pelo Senado, exigirá das transportadoras uma revisão das operações com seus clientes para reduzir o tempo perdido em cargas, descargas e entregas. A avaliação é de José Alberto Panzan, diretor da Anacirema Transportes, para quem a dificuldade de contratar motoristas limita a possibilidade de ampliar as equipes para atender à nova organização do trabalho.
O que aconteceu
Em entrevista ao videocast da Agência Transporte Moderno, o empresário afirmou que o setor já enfrenta escassez de profissionais e dificuldades para atrair novos trabalhadores. Nesse cenário, a contratação de mais motoristas pode elevar os custos sem necessariamente resolver a necessidade de pessoal.
“Vamos ter que buscar uma alternativa. E a única alternativa é aumentarmos a nossa produtividade”, afirmou. “Não dá para o caminhão andar mais depressa na estrada, na rua. Vamos ter que conversar com os nossos clientes.”
Panzan, que também é vice-presidente do Sindicamp e diretor da Fetcesp, defende que essa discussão seja conduzida operação por operação, com o objetivo de identificar onde a demora compromete o aproveitamento dos veículos e da jornada dos profissionais.
O que muda na prática para o transportador
- Negociação com embarcadores entra na pauta — a produtividade deixará de ser discutida apenas internamente e passará a envolver clientes, com foco em reduzir filas, esperas e pátios inadequados;
- Dimensionamento por tipo de operação — entregas urbanas, viagens rodoviárias e abastecimento de plantas industriais 24×7 exigem equipes e perfis distintos, e a análise precisa ser feita contrato a contrato;
- Plataformas digitais como paliativo — ajudam pontualmente na falta de mão de obra, mas não reduzem custos e a rotatividade dificulta manter padrões de atendimento e capacitação;
- Análise econômico-financeira obrigatória — a reorganização das escalas deve ser acompanhada do balanço de cada operação, sem estimativas genéricas.
Onde está o risco
O risco se soma ao já gerado pelo julgamento da Lei do Motorista pelo STF, que em 2023 invalidou dispositivos que excluíam da jornada o tempo de espera por carga, descarga e fiscalização da mercadoria. Panzan cita situações como a do motorista que chega ao limite da jornada perto de casa e precisa interromper a viagem para cumprir o descanso obrigatório, além da insuficiência de locais adequados para essas paradas. Nos pontos de entrega, o problema se repete: “Em alguns pontos de entrega e de descarga, o cliente não tem pátio. O caminhão fica para a rua”, relatou.
Onde está a oportunidade
A oportunidade está em transformar a obrigação em ganho de eficiência. Reduzir esperas significa mais aproveitamento da frota, mais viagens por motorista dentro da jornada e menos custo por entrega. Panzan defende ainda investimento em capacitação, remuneração digna e melhores condições de trabalho ao longo de toda a viagem, lembrando que o motorista hoje representa a transportadora no contato com o cliente: “O motorista é o cartão de visita da nossa empresa”.
Vale destacar que o texto aprovado pela Câmara prevê regimes diferenciados para atividades como o transporte, com possibilidade de compensação por acordo ou convenção coletiva para assegurar, na média, dois dias de repouso semanal remunerado dentro do mês. Essa previsão, porém, não representa dispensa geral das novas regras para o setor.
Leitura estratégica
Para o SETCOM e suas associadas, a mensagem central é clara: a adaptação à escala 5×2 não se resolve só com contratação, e sim com produtividade. O tempo parado em portaria, pátio e doca, que sempre foi um custo invisível, passa a ser o principal alvo da gestão. O recado prático é mapear as operações com maior tempo de espera, levar dados à mesa de negociação com os embarcadores e usar os espaços de negociação coletiva previstos na própria PEC para desenhar escalas compatíveis com a realidade de cada contrato.
Crédito/Fonte Agência Transporte Moderno
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