Segundo maior polo de transporte de cargas do País, Minas enfrenta desafio para atrair caminhoneiros
Violência nas rodovias, longas jornadas e mudanças nas expectativas dos trabalhadores reduziram interesse pela carreira. Setor alerta para risco de renovação da mão de obra.

Mesmo sendo o segundo estado brasileiro em número de viagens de carga, Minas Gerais enfrenta um desafio crescente para renovar o quadro de motoristas profissionais. Segundo representantes do setor, a carreira perdeu atratividade diante da violência nas rodovias, das longas jornadas e das mudanças nas expectativas dos trabalhadores — o que acende um alerta para o futuro do transporte de cargas.
A preocupação ganha ainda mais peso diante da importância do transporte rodoviário para a economia mineira. Só no ano passado, Minas realizou 2,34 milhões de embarques, segundo o Anuário do Transporte Rodoviário de Cargas 2025, elaborado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
O diagnóstico do setor
Para o presidente do Setcemg, Antonio Luis da Silva Junior, insistir na ideia de escassez de mão de obra não contribui para enfrentar o problema. “O setor precisa discutir por que a profissão deixou de atrair novos profissionais. Existem pessoas aptas a atuar na atividade, mas a carreira perdeu espaço para outros caminhos no mercado de trabalho. Recuperar esse interesse é o primeiro passo para garantir a continuidade da profissão”, afirma.
Fatores que afastam novos motoristas
Entre os fatores que afastam novos profissionais, segundo o Setcemg, estão:
✓ Violência nas rodovias: insegurança nas estradas é um dos principais inibidores
✓ Tempo prolongado longe da família: impacto direto na qualidade de vida
✓ Jornadas desgastantes: rotina pesada compromete saúde e bem-estar
✓ Falta de renovação geracional: muitos pais já não veem a profissão como opção para os filhos
✓ Percepção de desvalorização: remuneração isoladamente não compensa os sacrifícios
“Quem escolhe uma profissão considera o conjunto de condições oferecidas. Segurança, respeito, boas práticas nas empresas, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e perspectiva de crescimento têm peso nessa decisão. A valorização do motorista passa por todos esses aspectos”, acrescenta Antonio Luis.
O retrato do motorista em Minas Gerais
Segundo o Anuário do Transporte Rodoviário de Cargas de 2024, da ANTT:
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Motoristas de caminhão em MG | 82,3 mil (2º maior do país) |
| Líder no ranking | São Paulo: 195,3 mil |
| Salário médio em MG (2024) | R$ 2.960 (7º maior) |
| Maiores salários | SP (R$ 3.540), MT e PR (R$ 3.287) |
Iniciativas em andamento
Para enfrentar esse cenário, o setor de transporte de cargas tem investido em ações de qualificação e incentivo à entrada de novos profissionais. Entre elas:
✓ Programa Mais Motoristas (SEST SENAT) custeia mudança de categoria da CNH e oferece capacitação especializada
✓ Projetos de inclusão feminina ampliação do público-alvo para motoristas mulheres
✓ Formação de novos condutores parcerias com entidades do setor
Criado em 2023, o programa já capacitou milhares de profissionais. Na primeira edição, mais de 55 mil pessoas se inscreveram em todo o Brasil.
“O programa é uma resposta a um problema real que afeta o transporte e toda a cadeia produtiva do País: a falta de motoristas qualificados. Quando formamos novos profissionais, estamos não só oferecendo oportunidades de emprego e renda, mas também fortalecendo a economia brasileira”, explica a diretora executiva nacional do SEST SENAT, Nicole Goulart.
O desafio de renovação de motoristas em Minas Gerais não é apenas um problema de RH é um risco operacional e competitivo para as transportadoras. Com 2,34 milhões de embarques anuais e o segundo maior contingente de motoristas do país, qualquer descompasso entre oferta e demanda de profissionais qualificados se traduz em:
- Aumento de custos com recrutamento e rotatividade
- Perda de produtividade por falta de motoristas disponíveis
- Pressão sobre motoristas ativos jornadas mais longas e maior desgaste
- Risco de descumprimento de contratos por incapacidade de alocar frota
Para as transportadoras, a recomendação é clara: investir em retenção de talentos (segurança, qualidade de vida, remuneração competitiva) e participar ativamente de programas de formação como o Mais Motoristas. A renovação da mão de obra não é responsabilidade apenas do poder público é um imperativo estratégico para o setor.
Fonte: Diário do Comércio
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